top of page

Entrevista com prof. Robin Clarke

  • Foto do escritor: Rhama Analysis
    Rhama Analysis
  • 2 de jan. de 2008
  • 4 min de leitura

Tucci: Einstein dizia que "Deus" não jogava dados, Einstein estava errado ou "Deus" aprendeu? Clarke: Os desenvolvimentos na física do século passado mostraram que Einstein, como o restante da humanidade, às vezes cometeu erros: um deles ocorreu quando ele disse que Deus não joga dados. Conforme a opinião do Professor Stephen Hawking, numa palestra muito divertida, (http://www.hawking.org.uk/lectures/dice.html) “toda a evidência indica que o Deus é um jogador viciado, que lança um dado sempre que seja possível.” Assim, parece que Deus não aprendeu jogar dados, mas sempre jogava!

Tucci: Na sua opinião quais as maiores contribuições da estatística em hidrologia e recursos hídricos?

Clarke: Acho que a maior contribuição de estatística em hidrologia e recursos hídricos é a quantificação da incerteza de eventos que possam ocorrer no futuro, ou que possam ocorrer em locais onde não existem dados. A teoria de decisão, que é intimamente vinculada à estatística, também apresenta métodos para a tomada de decisão no contexto do planejamento de recursos hídricos, a partir dos conceitos de utilidade e a seleção da decisão que maximiza a utilidade esperada. Um livro muito interessante sobre a quantificação de incerteza (não especialmente na área de recursos hídricos, mas também em muitas outras áreas de ciência e da vida pessoal) é “Understanding Uncertainty” (2006) por D V Lindley. Este autor foi o meu professor de estatística quando estudava na University of Cambridge, e é famoso por introduzir os métodos bayesianos que são extensivamente utilizados tanto em recursos hídricos como em outras áreas de ciência. (Ele era o único professor, na minha experiência, que recebeu uma ovação espontânea dos seus alunos, todos em pé, ao fim da última aula de uma disciplina de estatística.)

Tucci: Com a alteração do uso do solo e as mudanças climáticas o desafio moderno é projetar o futuro com séries não-homogêneas, além de revisar os projetos em funcionamento, Como fazer isto com a Estatística de hoje?

Clarke: Na hidrologia estatística clássica, as freqüências de eventos ocorridos fornecem informações sobre a freqüência dos mesmos no futuro, porque foi razoável supor que os registros hidrológicos de precipitação e de vazão eram “estacionários”, com as medições flutuando em torno de um valor médio constante, e com dispersão que também foi homogênea. Mas na presença de mudanças climáticas, a suposição básica de estacionaridade não é mais apropriada: as freqüências (por exemplo, a freqüência de enchentes e de chuvas intensas) estão mudando, e o nosso conhecimento das causas é limitado demais para prever como as características da vazão e da precipitação mudarão no futuro. Mesmo que, no passado, fosse razoável falar de uma inundação com período de retorno 100 anos, a utilidade da medida de freqüência é muito menor na presença de mudanças climáticas. Ainda é possível utilizar as (três) axiomas da teoria de probabilidade para calcular a probabilidade dos eventos que não ocorreram no passado (por exemplo, o rompimento de uma barragem de grande porte, ou a falha de um sistema de distribuição de água ou de energia). Com tais eventos, a estimativa “freqüentista” não é possível. A obtenção das suas probabilidades é um pouco mais complicada, porque estamos entrando no campo de probabilidades subjetivas. A abordagem mais útil é pela introdução de eventos adicionais que são relacionados ao evento de interesse, e pela aplicação das leis de probabilidade condicional. Isto é muito semelhante ao método utilizado para determinar as coordenadas de um ponto na preparação de um mapa regional (pelo menos antes da invenção de GPS): foi necessário conhecer outros pontos na região, e calcular os ângulos até o ponto de interesse. Assim o local do ponto foi determinado a partir de um processo de triangulação, e o calculo de probabilidades (ou “graus de crença”) é semelhante. Algumas pessoas opinam que uma probabilidade obtida “subjetivamente” tem valor menor que a probabilidade “freqüentista” baseada no uso de dados. Mas a “objetividade” de uma probabilidade de um evento calculada a partir da sua freqüência de ocorrência no passado também é sujeita a críticas por ser subjetiva. Isto é porque uma freqüência calculada a partir de uma amostra de dados – suposta uma amostra aleatória - é usada como uma estimativa da probabilidade numa população. Mas qual população? Um exemplo da vida quotidiana ocorre quando eu quero comprar seguro de vida; o assessor de seguros pode consultar uma tabela que mostra o número esperado de anos de vida, na população, de uma pessoa da minha idade. Mas qual população? A população de brasileiros? De europeus? De europeus que moram na América do Sul? De europeus que moram no Brasil com o meu padrão de vida? Logo a população consiste de uma pessoa, eu. Assim os conceitos de uma “população” e de uma “amostra aleatória” tirada desta população são muito questionáveis.

Tucci: Com a redução do risco e da incerteza é possível chegar ao determinísmo?

Clarke: Não: veja a palestra do Hawking mencionada acima. Einstein, como o filósofo Laplace do século anterior, acreditava que, dadas as posições e velocidades de todas os partículas no universo, seria possível – teoricamente! – calcular as suas posições e velocidades em qualquer tempo do futuro. Mas agora sabemos que isto nunca é possível (mesmo se existisse um computador suficientemente grande para fazer os cálculos, antes do fim do nosso universo!).

Eng PhD Carlos E. M. Tucci

 
 
 

Comentários


Inscreva-se na nossa Newsletter

bottom of page