Dúvidas e incertezas das mudanças climáticas (Artigo 1 de 3)
- Rhama Analysis

- 24 de abr. de 2011
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As mudanças climáticas afetam o dia a dia de toda a população, mas quem disse que o clima é constante? Sempre foi variável, no entanto, o que se discute é a magnitude desta variação. Observam-se variações na sazonalidade e nos extremos em diferentes épocas do ano. Porém, até que ponto estas variações não fazem parte das variações de período mais longo e nossos dados e memória são mais curtos (variabilidade interdecadal do clima)?
Parte das evidências de mudanças climáticas pode estar relacionada com a variabilidade de longo prazo do clima e parte devido ao efetivo efeito antropogênico da emissão de gases de efeito estufa. Os principais argumentos são apresentados com base na simulação com modelos climáticos, no entanto estes modelos apresentam simulações que comparam resultados entre si, tentando estimar suas incertezas, mas não são analisados com dados (atuais) para representar o cenário climático. Quando foram utilizados, apresentaram tendenciosidade na representação de variáveis climáticas e tendem a subestimar ou superestimar a precipitação. Quando os resultados entre modelos são comparados, os resultados mostram desvio padrão igual ou maior que a própria variação do clima.
Os modelos têm sido utilizados para comparar cenários futuros e analisar diferentes impactos na sociedade. Representam cenários comparativos e não absolutos. Portanto, a capacidade efetiva de quantificar os impactos absolutos num distante final do século é baixo. Os relatórios que utilizam estes modelos tendem a mencionar com alto grau de probabilidade (que os modelos não possuem) acontecimento de eventos como de inundação. Mencionam que tenderão a se tornar mais extremos nos mínimos e nos máximos. Sempre que ocorre uma grande cheia ou uma grande estiagem, é mencionada a mudança climática. A questão fundamental é que os modelos não possuem capacidade de estimar de forma adequada estes eventos. Os argumentos a favor dos modelos são que, analisando cenários relativos, é possível ter uma visão do futuro. Será real?
Não tenho respostas para todas estas perguntas, nem estou desejando desprezar as previsões, apenas coloco as reais questões existentes. Lembro que no início da década de 90, quando trabalhei numa pesquisa internacional sobre o assunto, o coordenador perguntou a todos os pesquisadores se acreditavam em mudança climática. A minha resposta foi que os argumentos usados têm lógica qualitativa, mas os argumentos quantitativos não eram precisos para comprovar a magnitude dos efeitos. Passados vinte anos, os modelos evoluíram muito, mas ainda possuem razoável tendenciosidade. Isto não é nenhum fracasso, ao contrário, existem muitos resultados promissores, mas como pesquisadores, é necessário buscar a resposta com melhor comprovação. Isto na realidade não deve nos tornar inertes ou deixar de adotar medidas de gestão relacionadas com os riscos e com as informações existentes. Isto envolve alguma precaução e medidas preventivas dentro do cenário de planejamento de longo prazo dos sistemas hídricos.
Duas semanas atrás fiz uma apresentação num evento em São Paulo e coloquei muito das minhas dúvidas e mostrei que o efeito em recursos hídricos é o das séries não-estacionárias. As séries não-estacionárias podem ocorrer devido:
Mudanças do uso do solo e obras hidráulicas: desmatamento, reflorestamento, urbanização, barragens, diques, etc;
Variabilidade climática natural;
Mudanças climáticas.
Os projetos de engenharia de recursos hídricos adotam séries estatisticamente estacionárias, portanto podem aumentar as suas incertezas para o futuro em função destes fatores. As variabilidades climáticas são evidentes nas séries observadas no passado e levaram a insustentabilidade de regiões. Da mesma forma que a alteração da cobertura do solo alterou as vazões e as condições hídricas. Portanto, torna-se uma arte de planejar considerando a gestão de risco.



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